Arquivo do blog

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Conteúdo para 2ºs anos (2º Trimestre 2010)

COLOMBO, A PIZZA E A BIODIVERSIDADE

A descoberta da América terminou em pizza. Os nativos americanos conheciam o tomate, mas não a farinha. Os europeus tinham o trigo, mas ainda não conheciam o molho ao sugo. Mais do que massacrar índios, como enfatizam historiadores revisionistas, ou espalhar a fé cristã, como Colombo dizia, as viagens transatlânticas inauguradas em 1492, tiveram como consequência a unificação genética do planeta.

Os genes que cruzaram o mar nas duas direções modificaram o mundo tanto quanto a artilharia ou o modo de produção capitalista. O tomate pode ter dado à pizza napolitana a forma com a qual ela é conhecida hoje, mas a batata teve um papel fundamental na alimentação da população européia em expansão . Existe até quem culpe o tubérculo pelas duas guerras mundiais. É o caso do historiador William McNeill, citado pela revista "U.S. News & World Report". O raciocínio é tortuoso: a batata era a dieta básica da força de trabalho alemã. A expansão dessa força de trabalho foi fundamental para o país virar uma grande potência, com os resultados conhecidos.

Outros genes tiveram um papel mais direto na história, aqueles que constituem os micróbios causadores de doenças. Não há duvida do papel que doenças estranhas podem ter na dizimação de nativos não expostos a ela. Até hoje índios brasileiros sem contato prévio com os descendentes dos colonizadores podem morrer de resfriado.

Há provas que algumas tribos nativas da América perderam até 90% de seus habitantes depois de contatadas pelos brancos e negros que vieram da Europa e da África. A lista de doenças é extensa: não havia nem malária, nem varíola, nem tifo, nem sarampo, nem febre amarela. Nesse aspecto, sem dúvida o continente era o paraíso que os historiadores multiculturalistas críticos da "descoberta" gostam de escrever.

Um historiador das doenças, Alfred Crosby, autor de "The Columbian Exchange" ("O Intercâmbio de Colombo"), mostra o impacto que os genomas do Velho Mundo tiveram no Novo. Mas ele também não escapa das críticas dos que vêm nos últimos quinhentos anos uma sucessão de estupros e chacinas. Crosby diz que os europeus não queriam que os ameríndios morressem. Eles seriam mais úteis como força de trabalho para os colonos. "Como escravos descartáveis", diz o coro dos críticos.

Seja qual for o grau de candura que se queira imprimir na análise dos processos históricos, o intercâmbio certamente alterou a biodiversidade do planeta. Não só pessoas colonizaram a América: fauna e flora vieram junto. Colombo e sucessores deram sua mãozinha na universalização da seleção natural darwiniana, o processo pelo qual as espécies vivas mais aptas sobrevivem em um dado ambiente e deixam descendência. Barreiras geográficas são um dos fatores que moldam a evolução das espécies. As caravelas quebraram uma das barreiras, e entre os que melhor aproveitaram estão os vírus e bactérias causadores de doenças.

Homens e micróbios "co-evoluem". Há uma perene corrida armamentista entre parasita e seu hospedeiro, cada um adaptando armas bioquímicas complexas. O sistema imune, de defesa do organismo, foi evoluindo em resposta a ameaças de bactérias e vírus. A febre, por exemplo, é uma maneira de de derrotar bactérias "cozinhando-as" em uma temperatura mais alta.

Há doenças que persistem em pequenas populações, mas há outras que precisam de um grande número de vítimas para se propagarem, causando epidemias. Os biólogos acreditam que várias delas surgem de micróbios existentes em animais domesticados (é possível que o próprio vírus da Aids tenha vindo de vírus semalhante em macacos africanos). A população de micróbios europeus era mais variada, provavelmente porque havia maior gama de animais domésticos que serviram de reservatório para a evolução dos agentes patogênicos. Os europeus estavam portanto melhor equipados para a guerra bacteriológica. Tomaram então a América e colocaram tomate na pizza.

(Texto de Ricardo Bonalume Neto, extraído do jornal Folha de São Paulo, de 11/10/1992)

Nenhum comentário:

Postar um comentário