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segunda-feira, 14 de junho de 2010

AMÉRICA É A AVÓ DA PASTA NAPOLITANA

O planeta deve à América pelo menos seis dos produtos culinários mais utilizados, atualmente, em todo o universo: o abacaxi, a batata, o feijão preto, o milho, o tomate e o chocolate. Todos eles encaminhados à Europa por Colombo ou pelos navegadores que sucederam sua expedição.

O tomate, por exemplo, do inca "tomatl", viveu aventuras bem atribuladas. Crescia feito praga e sua pujança entusiasmou Colombo. Na Espanha, todavia, o fruto não se desenvolveu tão rubro como na América. Por comê-lo ainda verde e pior, com as folhas e os talos, muita gente da monarquia se intoxicou, a ponto de a coroa da Ibéria proibir o seu consumo. Só no final do século 16, transportado à Itália, mais exatamente a Nápoles, o tomate adquiriu a cor vermelha e a sumarência que fariam dele o fundamento da cozinha italiana, parceiro compulsório do macarrão e habitual de várias pizzas da península.

O abacaxi, por sua vez, já era cultivado pelos incas peruanos nos entornos do ano 1000, conforme demonstram peças arqueológicas em barro, com o desenho da bromeliácea, datadas daqueles idos. Do sul do continente a fruta escalou o mapa na direção do Caribe e, em 1493, na ilha de Guadalupe, Colombo & Cia se locupletaram com sua enorme suculência. Havia no local tantas amostras da maravilha que os nativos receberam os exploradores com verdadeiras coroas de abacaxi, várias e várias peças amarradas entre si, um sinal de boas-vindas e paz.


Batatas bélicas

A batata, ao inverso do abacaxi, serviu de arma aos naturais de Cartagena, na costa da Colômbia, durante uma incursão dos corsários do inglês Sir Francis Drake, nos arredores de 1570. Um dos imediatos de Drake, de nome Malcolm Marsh, se engraçou com uma garota local, batizada de Potatl. O pai da moça exigiu que Marsh se casasse com ela. De madrugada, os britânicos decidiram escapulir de Cartagena. Os selvagens correram atrás dos fugitivos. Sem bala ou flechas, desandaram a atirar no inimigo a sua preciosidade alimentar, tubérculos de casca levemente penuginosa.

Os navios de Drake se encheram de quilos da coisa - que resistiu bravamente sem apodrecer, até o retorno da brigada à corte de Elizabeth I. A rainha ofereceu um banquete aos navegadores. Do menu, fizeram parte, cozidos e assados, os tais tubérculos. Quando sua Majestade perguntou a Drake de que delícia se tratava, o capitão desferiu, entre gargalhadas: "Trata-se da paixão de Mr.Marsh, madame. Chama-se Potatl". Logo, de Potatl o produto se transformou em "potato", o inglês para batata.

Produtos aparentemente originários do novo continente e típicos como a banana e a cana-de-açúcar, cuja indústria chegou a moldar civilizações no Caribe e Brasil, foram importados do Velho Mundo.

Feijão e chocolate

Os homens de Colombo também travaram o primeiro contato da Terra supostamente civilizada com o feijão preto, o milho e o chocolate, iguarias que os astecas, inclusive, a sua moda, já industrializavam. Fermentado, o feijão servia como conservantes de carnes secas ao sol e então acondicionadas em potes enormes de argila.

O milho virava farinha e de farinha se tornava pão e massa de tortas cerimoniais recheadas com múltiplas pimentas. O chocolate, do asteca "chocolatl", funcionava como base de poções revigorantes. Colombo detestou o resultado mas carregou de retorno à Europa sacos e mais sacos das suas sementes torradas, na expectativa de substituir com elas o caríssimo café importado das Arábias.

(Texto de Sílvio Lancellotti, publicado no jornal Folha de São Paulo, de 11/10/1992)

Um comentário:

  1. Ah, privilegiados estes descobridores que foram os primeiros a ver e comer chocolate!!! Muito legal o blog Naia, já está entre os meus favoritos! Bj

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